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'Loucura do ator é tentar entender relações humanas', diz Nachtergaele



O ator Matheus Nachtergaele revela que foi no teatro que conseguiu organizar a vida e conseguiu celebrar o caos das relações humanas.




A carreira de Matheus Nachtergaele tem suas bases fincadas no teatro, de onde as portas se abriram em direção ao cinema - fez mais de 20 filmes - até chegar à televisão. Ele conta, durante uma entrevista ao ‘Ofício em Cena’, que é com "técnica, pensamento e cultura" que consegue dar legitimidade a personagens complexos, arriscados, viscerais, que exigem dele uma atuação quase sempre vertiginosa. "Os bons atores, na minha opinião, não trabalham com a emoção, mas com uma lembrança da emoção, ou com uma sensação da emoção que possa ser remontada, a partir da necessidade de um trabalho ou outro, ou de um personagem ou outro. E para conseguir organizar isso é preciso técnica, não necessariamente técnica de ator, mas cultura”, define o intérprete de grandes papéis como o impagável João Grilo, da minissérie "O auto da compadecida", de Ariano Suassuna.

Matheus conta que a inspiração para a construção deste personagem surgiu observando um menino, durante a gravação de um filme no Vale do Jequitinhonha. "As crianças começaram a conviver com a equipe do filme, e tinha um menino que tinha tido paralisia infantil e ele começou a trazer poesias e desenhos para a gente olhar. E quando ele trouxe o dele, me surpreendeu. Ele era o único cara que realmente sabia ler, sabia escrever, que tinha subjetividade nos escritinhos dele. E a gente decidiu fazer o João Grilo um pouco baseado nessa minha lembrança desse menininho do Jequitinhonha."

Mas nem sempre a composição surge de forma tão lúdica. Para interpretar o personagem bíblico em "O livro de Jó", uma das peças mais importantes da cena brasileira, Matheus decidiu ir a uma aula de dissecação de cadáveres do curso de medicina da USP, e lembra que viveu um processo doloroso, para entender a morte e o sofrimento: "Mesmo eu tendo vivido mortes próximas a mim desde cedo, a morte era quase uma ficção e era preciso que eu entendesse isso em mim. Um dia, um cara que estava me guiando lá dentro me levou num tanque de fígados. No meio dos fígados, tinha um feto. Eu achei o Jó, no meio daqueles órgãos todos, o neném era o Jó.  A partir daí, eu já comecei a ensaiar pelado e banhado de sangue, como aquele feto”, lembra o ator.

O ator, que era um bebê de 3 meses quando sua mãe morreu, aos 22 anos, diz que ausência dela o marcou de forma profunda e que foi no teatro o palco ideal para se reconciliar com a falta perturbadora provocada pelo suicídio de Maria Cecilia. “Desce cedo eu passei um pouco da vida tentando estar de pé nessa derrapagem que ela se apresentou pra mim. E foi no teatro que eu consegui organizar a vida e pude celebrar este caos das relações humanas. E a loucura do ator é tentar entender as relações humanas profundamente”, diz ele.








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