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Fernanda Montenegro & Shakespeare, uma crônica de Maximo Trevisan


 O Bobo disse ao rei Lear, quando ele lamentava os erros cometidos: “Não devias ter ficado velho antes de ficares sábio.” Lembrei-me da afirmação de Shakespeare, escrita há 400 anos, ao ler o que Fernanda Montenegro, aos 87 anos, falou em recente entrevista ao Canal Brasil: “Não tenho medo da morte, mas tenho pena de morrer. Vivi sempre muito intensamente. Eu não joguei fora nenhum momento. Eu me lambuzei de cada momento que eu vivi, que estou vivendo.” Que mulher sensacional essa atriz, que nós, brasileiros, temos o privilégio de ter em nosso meio! Ela tornou real o pensamento de Shakespeare: pois soube se tornar sábia antes de ficar velha!..

Ano passado, li um texto de Francisco Daudt, no jornal Folha de São Paulo, sobre a velhice. Ele me levou novamente a pensar na vida e no tempo que passa. Aliás, mais uma vez me perguntei se é o tempo que passa ou somos nós que passamos pelo tempo. Fernanda Montenegro não tem medo de morrer, mas sim tem pena de morrer! Entendo que assim fala só quem se sente feliz. A propósito, noutro dia, em fim de tarde, encontrei o amigo Dr. Troian, no Calçadão. Conversa vai, conversa vem (amigos que se prezam se dão tempo para conversar…), caiu o assunto idade. Ele, então, afirmou que estava com vontade de não renovar a sua carteira de motorista… (mas acabou renovando). Revelou também que estava muito feliz! Mas, logo, logo,  vi que ele  puxou o freio de mão, ao dizer que não se animava a repetir a frase, pois, noutro dia, dissera a mesma a um outro amigo e tivera, como resposta, uma pergunta: “Mas você era infeliz antes?”

Meu caro, Dr. Troian: neste tempo tão cinza, tão repleto de afirmações falsas, etc, etc, não se dê o direito de chamar-se ao silêncio ao falar sobre a sua vida e a felicidade que está vivendo. Assuma o risco de um invejoso pensar que está mentindo ou de um pessimista ou deprimido julgar que não é possível ser feliz hoje e neste país, em que até demonstrar alegria e felicidade está difícil. Não esconda a sua felicidade! No texto de Daudt, que referi acima, o autor também comprova que se tornou sábio antes de ficar velho: “Então estou negando os perrengues que a idade traz? Claro que não. Só não quero levar, além da queda, o coice. Calvície? Nomes demoram a ser lembrados? Algumas dores articulares? Diminuição do tempo de sono? OK, paciência, mas achar que disso decorre uma retirada do erotismo e da curiosidade, do achar graça em viver?” Esse é o caso, o desafio de todos nós ante os anos que se acumulam: como conviver com as suas turbulências que o voo no tempo cobra de cada um? Como alimentar a vontade e o prazer de viajar no mundo, cultivando sonhos e novos projetos de vida? Como suscitar surpreendentes e prazerosas emoções e renovar um coração muitas vezes carregado de decepções e frustrações? Os infelizes não têm pena de morrer! Os felizes, sim!







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